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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

8. A rua é até grande, mas é sem saída.

Vi uma entrevista no Blog do Professor José Luiz Quadros e conclui que de fato ela é muito interessante e de um relevo absurdo e não pude deixar passar, não pelo que ele diz em si, mas pelos desdobramentos extraídos do que diz. Confiram abaixo parte da entrevista com o sociólogo norte americano Immanuel Wallerstein  e o comentário que fiz logo após.
(para conhecer um pouco da biografia do entrevistado, clique aqui e pra ler a entrevista completa, clique aqui.)



''O capitalismo chegou ao fim da linha'', afirma Wallernstein


Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?
Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.
Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?
Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.
Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?
Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.
Qual a sua visão?
Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.
(...)
O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?
A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.
(...)
Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?
Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.
Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?
Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.
É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?
É o que vemos há 500 anos.


--FIM--



Pois bem, meus caros leitores, a história, como sempre defendi, é composta por
ciclos que se iniciam e, fatalmente, terminam. O obstáculo maior para se enxergar
a ciclicidade, não importando se ela é política, econômica, social ou de qualquer
outra ordem é que os ciclos são longos e a vida, curta. Portanto, todos os habitantes
da face dessa terra já nasceram incrustados nesse sistema capitalista e a maioria de
nós, meros mortais, acredita na sua eternidade. Mas nenhum sistema é eterno, e
tenham certeza de que este sociólogo (que ironicamente é norte-americano) está
correto. O sistema capitalista terá um fim, cedo ou tarde. Isso é fato incontroverso.
Por isso o que quero discutir aqui são os desdobramentos deste final:
Primeiro, o sistema que o sucederá. Realidade já apontada pelo sociólogo e que
nos causa grande angústia interior. O sistema seguinte pode ser melhor, mais
efetivamente democrático,humano e moral, ou pode ser pior, mais explorador e
excludente. A História vem nos mostrando o quanto o povo tem poder para mudar
os cursos de rumo. O moribundo sistema atual nasceu de uma revolução de
burgueses insatisfeitos com o Antigo Regime (burgueses estes que não eram nem
a maioria e nem os mais poderosos, mas que assim se tornaram pela simples força
da vontade ou obstinação, que os levaram a agir, a fazer alianças com as massas
quando lhes foi conveniente e com as elites quando foi igualmente conveniente).
Agora, um maior número de pessoas tem acesso à educação e expressão de
pensamentos, por isso a substituição do capitalismo (que se dará de forma sutil,
e não revolucionária como queria Marx) poderá ser como quisermos. E devemos
querer pender para o lado menos explorador, mais humano e mais moral, pois
assim será se realmente o fizermos. As oligarquias que dominam a economia
mundial não vão querer deixar o poder, mesmo que o sistema mude. Elas
intencionarão ficar no poder e continuar explorando uma massa em prol de uns
poucos e não poderemos permitir um fato tal, já o permitimos por mais de 500
anos. Muitos dos que estão entre nós nem sequer notariam essa mudança se ela
acontecesse hoje, e é aí que se esconde o maior perigo dessa transição. Por isso
escrevo, quero alertar, acordar e incitar vocês que leem, para que o progresso
se dê à nossa maneira, e não à maneira dos velhos oligarcas, liberais e
corporocratas que já criaram limo no poder.


Em segundo lugar quero pontuar um desdobramento não citado pelo sociólogo, mas que trago à tona:
Os atuais detentores do poder e os capitalistas por excelência certamente tentarão salvar o sistema a todo custo. Certamente. Eles intensificarão seus métodos de controle e influência de massa, se infiltrarão mais ainda nos governos e se não arrisco muito, digo que tentarão dar golpes e reinstituir velhas práticas liberais (e liberais mesmo, nos moldes do século XIX). Devemos ficar atentos, e mais uma vez apelo ao uso consciente do instrumento do voto. Escolham bem seus candidatos, conte o que sabe a outras pessoas e não vamos deixar que esse projeto de restauração vingue. O estado social enquanto diretriz política se desenvolve bem e começa a atender o momento histórico. Fato é que ainda faltam alguns aperfeiçoamentos. Todavia, o capitalismo enquanto diretriz econômica já está absolutamente ultrapassado. Ele surgiu para atender aos interesses de uma minoria (burguesia). Hoje, este conceito de minorias controlando maiorias já é obsoleto. Precisamos de um sistema econômico que atenda às maiorias enquanto abrange paralelamente os interesses das minorias e que o dinheiro deixe de ser o fator preponderante na vida das pessoas. Que a intelectualidade passe a valer mais, que ideias tenham mais espaço que dinheiro e que as pessoas se meçam pelas virtudes, como gostariam os velhos filósofos gregos e que a minoria tenha real espaço para manifestação de suas alternatividades (para contrariar o determinismo tocquevilliano). Que a concorrência continue a existir, como forma de garantir inovações, assim como o próprio mérito (afasto agora qualquer sonho falido de socialismo), mas que os derrotados tenham acesso a mecanismos de restruturação, porque como disse Ford em certa ocasião "o fracasso é uma oportunidade para começar de novo, desta vez de forma mais inteligente".

Por hoje, meu recado é este.

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