Na nossa gloriosa República Democrática Representativa os congressistas (ou parlamentares, como preferirem) são escolhidos por nós, cidadãos, para representar a nós e nossos interesses. Eles seriam eleitos por nós como uma espécie de 'técnicos' nos quais confiamos o exercício do poder legiferante por acreditarmos que eles estão mais bem preparados do que nós para tal prática (pelo menos teoricamente), ou como diria Bobbio : "De resto, a democracia representativa também nasceu da convicção de que os representantes eleitos pelos cidadãos estariam em condições de avaliar quais seriam os interesses gerais melhor do que os próprios cidadãos, fechados demais na contemplação de seus próprios interesses particulares; portanto, a democracia indireta seria mais adequada precisamente para o alcance dos fins a que fora predisposta a soberania popular". Sendo assim, quando elegemos um candidato, principalmente um parlamentar, confiamos nele, e esperamos que a recíproca seja verdadeira, e acreditamos ainda que ele entenda que trabalha para nós e nossos interesses e não para si. Posto isso, quero levar você, leitor, a entender que numa relação de um grau de intimidade tal, no qual o eleito deve conhecer e trabalhar pelos anseios, vontades e demandas do eleitor, não deve haver nenhum tipo de segredo e os canais de comunicação particular devem ser fartos e eficientes (não bastando só haver, como há, os e-mails e telefones disponíveis de cada parlamentar, esses meios devem ser de reconhecida eficiência, e não digo que não o são, somente alerto). Todavia, hoje há muitos segredos entre nós e eles, e esses segredos (e muito mais do que os segredos, a proteção dos mesmos), são canais obstaculizantes à real expressão popular e facilitadores do que um ilustre deputado federal de nosso tempo, o sr. Taumaturgo Lima atestou por "estimulantes à negociação obscura e abaladores da confiança da população".
Os senhores leitores entendam, por favor, as dimensões das consequências do voto parlamentar secreto (protegido pelos arts. 52 e 55 da Constituição Federal): Por não saber quem votou contra ou a favor de um determinado projeto ou julgamento, o cidadão fica com as mãos amarradas para investir contra e protestar formalmente. Exemplo: A srta. Jaqueline Roriz (e faço questão de não nomeá-la como deputada federal, porque desonra escandalosamente o título e o cargo) foi flagrada por câmeras recebendo dinheiro de propina (é só pesquisar em qualquer lugar que o caso está amplamente divulgado). Mesmo assim, quando do seu julgamento, diante de provas de culpa irrefutáveis e incontroversas, foi absolvida mediante votação secreta. Na influência do voto secreto em leis, há falcatruas, mas de forma bem mais tímida. O que me preocupa de fato é a perpetuação da corrupção por causa de brecha constitucional.
Tramita no Congresso Federal o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) nº50/06, que trata sobre o fim absoluto do voto secreto no parlamento. Já foi votado e esmagadoramente aprovado em primeiro turno (clique aqui para acompanhar o processo de tramitação do PEC) e aguarda, por motivos que se furtam ao meu entendimento, desde 2006 a votação em segundo turno. Teria sido um ato hipócrita de senhores que querem mostrar interesse por uma demanda popular tão grave, quando na verdade não se interessam?
Não estou aqui para acusar, acusações nos tiram do nada e nos levam a lugar nenhum, pelo menos enquanto esse PEC não for aprovado. Estou aqui para pedir mobilização, para pedir engajamento nesta luta pelo fim do voto secreto parlamentar, que já será um passo grande, quando acontecer, para o combate ao inimigo público número um da nação: a corrupção.
Sobre o PEC nº50/06: